Cascas de banana

Estudo analisa o aproveitamento da casca de banana para produção de energia e de insumos para a agricultura

Todos os anos, o Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos, mas apenas uma pequena parcela desse volume é reciclada. Boa parte desse material, que hoje representa um passivo ambiental, pode se transformar em uma fonte de energia renovável e de novos produtos de valor agregado.

É justamente esse potencial que reúne pesquisadores da Coppe/UFRJ e da Brunel University London (Inglaterra) no projeto South-East-North Network on Life Cycle Sustainability Assessment of Waste-to-Energy Technologies (SEN4WTE), (Rede Sul-Leste-Norte para Avaliação da Sustentabilidade do Ciclo de Vida de Tecnologias de Conversão de Resíduos em Energia) iniciativa dedicada a avaliar a sustentabilidade de tecnologias capazes de converter resíduos em energia, conhecidas como waste-to-energy (WtE), ou conversão de resíduos em energia.

Um dos estudos concentra-se em um resíduo abundante e pouco aproveitado: a casca de banana. Estima-se que mais de 83 mil toneladas desse material sejam descartadas anualmente no estado do Rio de Janeiro. Em vez de serem simplesmente descartadas, essas cascas podem ser transformadas, por meio da pirólise, em biogás, bio-óleo e biocarvão, produtos com potencial para gerar energia, fertilizantes e outros insumos. A pesquisa demonstra como o reaproveitamento de resíduos pode impulsionar a economia circular, reduzir impactos ambientais e gerar benefícios sociais e econômicos.

O projeto é coordenado pelo professor Amaro Pereira, do Programa de Planejamento Energético (PPE) da Coppe, em parceria com o professor Muhammad Shafique, da Brunel University London. Também participam pesquisadores do Instituto Nacional de Tecnologia de Trichy – NITT (Índia), da Universidade de Engenharia e Tecnologia de Taxila – UET Taxila (Paquistão) e do Centro de Pesquisa deJülich (Alemanha).

Da agroindústria para a produção de energia

O estudo conta com a parceria da empresa Fumel, fabricante de doces em Cachoeiras de Macacu (RJ), que gera cerca de duas toneladas diárias de cascas de banana. “Eles buscavam uma destinação ambientalmente adequada para esse resíduo. A partir daí, nossos alunos iniciaram os estudos sobre o ciclo de vida da pirólise da casca de banana, enquanto o professor Henrique Pacheco, do Programa de Engenharia Química da Coppe, ficou responsável pela caracterização do óleo obtido no processo”, explica Amaro Pereira.

Além do bio-óleo, a pirólise produz biogás com potencial para uso doméstico. “Esse biogás pode substituir o uso da lenha para cozinhar, uma realidade que ainda persiste em muitas regiões do Brasil e que representa um exemplo de pobreza energética. É uma tecnologia que aproveita um resíduo e, ao mesmo tempo, pode melhorar a qualidade de vida das pessoas”, destaca o pesquisador.

Outro produto gerado é o biocarvão, que pode ser utilizado tanto como carvão ativado quanto como fertilizante. Ensaios realizados por pesquisadores do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem) apontaram elevado potencial agronômico do material.

“A dependência brasileira da importação de fertilizantes ficou ainda mais evidente após a guerra entre Rússia e Ucrânia. Produzir fertilizantes a partir de resíduos agroindustriais representa uma oportunidade importante para o país. O desafio é integrar essas soluções à própria cadeia produtiva, fortalecendo a economia circular”, afirma Amaro.

Avaliando impactos ambientais e sociais

Além dos aspectos tecnológicos, o projeto busca compreender os impactos ambientais e sociais da conversão de resíduos em energia.

Para isso, a equipe utiliza metodologias de Avaliação do Ciclo de Vida (LCA) e Avaliação Social do Ciclo de Vida (S-LCA), permitindo analisar desde os impactos ambientais da tecnologia até seus efeitos sobre comunidades, geração de emprego, uso de recursos naturais e qualidade de vida.

Essa abordagem amplia a compreensão sobre a viabilidade das tecnologias waste-to-energy e pode contribuir para orientar políticas públicas voltadas à expansão das fontes renováveis de energia e à promoção de uma transição energética socialmente justa.

Até o final do ano, a Coppe receberá os pesquisadores internacionais envolvidos no SEN4WTE para um workshop que apresentará os resultados do projeto e discutirá estratégias para ampliar a adoção de tecnologias de conversão de resíduos em energia no Brasil.

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